Oi, meu pequeno Fernando,
Hoje é Dia das Crianças, e eu queria muito te escrever. Queria te abraçar de verdade, mas como o tempo ainda não inventou um jeito de fazer isso, deixo aqui minhas palavras, e nelas, todo o amor que você merecia ouvir naquela época.
Eu lembro de você. Lembro do vazio que sentiu quando seu pai foi embora.
Lembro do silêncio pesado que ficou em casa. Lembro da mamãe, tão cansada, tão ferida por dentro, tentando dar conta do mundo e descontando em você o peso que ela mesma não sabia carregar. Lembro também dos avós, rígidos, sem jeito com sentimentos, tentando ajudar do jeito que sabiam, mas sem perceber o quanto você só queria um pouco de carinho e escuta.
Não foi fácil, né? Faltava tanta coisa: um quarto só seu, roupas novas, material escolar que não fosse emprestado ou doado, comida que durasse até o fim da semana. Mas, mesmo assim, você deu um jeito de achar beleza nas brechas da vida.
Eu me lembro do seu sorriso quando descobriu o prazer de ler, aquele momento em que as palavras começaram a abrir portais dentro de você. Era como fugir, mas de um jeito bonito: fugia para dentro das histórias, para dentro de mundos onde a dor ficava pequena e a esperança era sempre possível. Será que você ainda lembra da história "O Casamento da Dona Baratinha"?
Lembro também das brincadeiras no córrego do Mestre D'armas, da água fria escorrendo pelo corpo, das risadas sinceras e livres, porque, mesmo cercado de tantas ausências, havia ali um menino inteiro, criativo, vivo. O mesmo menino que transformava uma lata de sardinha num carrinho e uma caixa de papel num computador, como se dissesse para o mundo: “Olha, eu também posso criar. Eu também posso sonhar.”
E, claro, lembro do brilho nos olhos quando assistia Cavaleiros do Zodíaco. Você se via neles, né? Pequeno, mas valente. Machucado, mas persistente. Lutando por justiça, mesmo quando o mundo parecia injusto demais. Hoje, eu (o Fernando que você vai se tornar), quero te dizer algo que ninguém te disse naqueles anos difíceis: você é amado. Mesmo sem um pai por perto. Mesmo quando a mãe gritava. Mesmo quando as roupas não serviam ou o estômago doía ao sentir fome. Você sempre foi digno de amor, de paz e de descanso.
Eu cresci, pequeno. E cresci com você dentro de mim. Aprendi a cuidar do homem que você se tornou, mas também a acolher o menino que você foi. Eu construí, passo a passo, o lar que você tanto sonhou, um lar dentro do peito, onde há espaço para você brincar de novo, rir de novo, acreditar de novo.
Então, nesse Dia das Crianças, quero te prometer uma coisa: Nunca mais você vai se sentir sozinho, nunca mais vai precisar se esconder para chorar. Nunca mais vai precisar provar que é forte, porque eu estou aqui agora, e é minha vez de cuidar de você.
Com amor, orgulho e ternura,
Fernando (o adulto que aprendeu a te proteger)